A criatividade culinária tem se mostrado uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento econômico local. Na Baixada Fluminense, mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM) encontraram uma nova fonte de renda ao resgatar saberes tradicionais para valorizar um peixe antes ignorado pelo mercado: a ubarana.
Transformação através da gastronomia
A Cozinha das Caranguejeiras, sediada na ACAMM, tornou-se o centro dessa transformação. O cardápio, que inclui estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, croquetes e risoles, utiliza a ubarana como ingrediente principal. A técnica de processamento, transmitida entre gerações, permitiu que o peixe, antes descartado ou pouco aproveitado, ganhasse destaque em almoços especiais e encomendas para turistas, pesquisadores e empresas da região.
Márcia Regina, que atuou como pescadora por 40 anos e hoje é auxiliar geral na cozinha e secretária da associação, destaca o impacto social da iniciativa. “São pratos feitos com ubarana e assim temos ajudado 15 famílias. As mulheres, às vezes com depressão, vão para a cozinha e acabam ficando boas. Porque, juntas, a gente começa a conversar, contar casos, histórias e problemas nossos. Uma ajudando a outra. Acaba sendo uma ação social dentro da Cozinha”, relata.
Desafios e superação
A trajetória da associação, que nasceu da insatisfação de catadores na região do Rio Suruí, ganhou fôlego com o apoio de editais. Após conquistar um espaço provisório em 2021 com o suporte do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a cozinha expandiu suas instalações em 2023. O trabalho não apenas gera renda, mas fortalece os laços comunitários entre as mulheres que vivem da região dos manguezais.
A bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, explica que a ubarana é um peixe comum em ambientes costeiros e estuarinos da Baía de Guanabara. No entanto, sua abundância de espinhas finas dificultava o preparo em filés, o que historicamente limitava seu consumo. A habilidade das caranguejeiras em contornar esse desafio técnico foi fundamental para transformar um recurso natural subutilizado em um motor de sustentabilidade e bem-estar para toda a comunidade local.







