A importância do bioma Cerrado ganha uma perspectiva literária e ecológica ao revisitar as anotações de João Guimarães Rosa. Em 1952, o escritor percorreu 240 quilômetros entre Três Marias e Araçaí, em Minas Gerais, registrando não apenas a riqueza da fauna e flora, mas também os primeiros sinais de degradação provocados pela expansão das siderúrgicas. Esse inventário detalhado serviu de base para obras fundamentais como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, que completam 70 anos em 2026.
A bióloga e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mônica Meyer, autora de Ser-tão natureza, aponta que Guimarães Rosa foi um observador atento da relação entre o homem e o meio ambiente. Segundo a pesquisadora, o autor já identificava como o carvão vegetal alimentava os fornos das indústrias da época, um processo que hoje se manifesta através da pressão do agronegócio sobre o bioma. Para Meyer, as obras de Rosa não tratam a natureza apenas como cenário, mas como um personagem vivo e indissociável da existência humana.
O olhar de Guimarães Rosa inverte a lógica antropocêntrica, colocando o ser humano como parte integrante da natureza. Em suas descrições, o autor detalha a complexidade das raízes pivotantes do Cerrado, essenciais para a absorção de água, e a dinâmica dos rios, como o afluente do Rio São Francisco. A pesquisadora define Grande Sertão: Veredas como um verdadeiro romance aquático, permeado pela consciência da escassez e da importância vital das águas.
A obra também funciona como um convite à contemplação e à preservação. Através de personagens como Diadorim, o autor estimula uma percepção sensível sobre a biodiversidade, como a observação de aves e o ciclo das estações. Mesmo sem utilizar um discurso militante explícito, a narrativa de Guimarães Rosa é considerada uma defesa profunda do bioma, ao registrar a beleza e a fragilidade de um ecossistema que exige proteção.
Neste Dia Nacional do Cerrado, o legado do escritor reforça a necessidade de compreender a intersecção entre cultura e ecologia. A obra de Rosa permanece como um documento histórico e um alerta atual, lembrando que a sobrevivência do bioma está intrinsecamente ligada à forma como a sociedade valoriza e interage com o meio natural que a sustenta.







