O cenário da mobilidade urbana no Brasil passou por uma transformação expressiva na última década. Entre 2016 e 2024, a frota de bicicletas elétricas, autopropelidos e ciclomotores no país cresceu 37 vezes, saltando de 7,6 mil para 284 mil unidades. Esse fenômeno, que reflete a busca por alternativas eficientes para deslocamentos curtos, será tema de uma reportagem especial que analisa os impactos desse crescimento e os desafios enfrentados pelas cidades brasileiras.
Segundo Luiz Saldanha, diretor executivo da Aliança Bike, o aumento no uso desses veículos ocorreu de forma espontânea pela população, que enxerga neles uma solução prática para o dia a dia. Contudo, o gestor ressalta que o crescimento acelerado trouxe novos desafios. “A população já entendeu que é um veículo que soluciona problemas. Falta entender como é que a gente consegue encaixar esses veículos e ordená-los no dia a dia”, afirma Saldanha, destacando a necessidade de discussões sobre a convivência e os conflitos no trânsito.
A falta de infraestrutura e o compartilhamento de vias com veículos pesados já resultaram em tragédias, como o caso do menino Chico, de 9 anos, que faleceu após ser atropelado por um ônibus enquanto estava em um autopropelido no Rio de Janeiro. O pai da criança, Vinicius Cacofonias, enfatiza a necessidade de maior consciência coletiva sobre os riscos: “Muitas vezes a gente pensa que isso acontece pouco, mas basta ser o seu que vai ser doloroso. Acho que a gente perde a perspectiva de que um dia pode ser a gente”.
A regulamentação atual, definida pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) em 2023, divide os veículos em três categorias: bicicletas elétricas (com pedal assistido), autopropelidos (sem necessidade de propulsão humana e limite de 32 km/h) e ciclomotores (que podem chegar a 50 km/h). Enquanto as duas primeiras categorias dispensam habilitação e licenciamento, os ciclomotores exigem registro e carteira de habilitação categoria A ou ACC. Especialistas como Raphael Pazos, da Comissão de Segurança do Ciclismo do Rio de Janeiro, criticam a flexibilidade da norma, argumentando que a reclassificação de dispositivos de mobilidade permitiu que equipamentos potentes circulem em calçadas e ciclovias sem a devida exigência de habilitação dos condutores.







