Um levantamento detalhado sobre o perfil racial dos candidatos para as Eleições 2026 revelou uma mudança gradual na representatividade política brasileira. Dados compilados pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pela consultoria CommonData, utilizando como base as informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), indicam que o número de candidatos autodeclarados pretos ou pardos alcançou 49,8% do total de registros válidos até o dia 16 de agosto, somando 10.191 nomes de um universo de 20.448.
Desafios na representatividade e financiamento
Embora o percentual de candidaturas negras tenha avançado em comparação aos 35,5% registrados em 2022, especialistas alertam para entraves estruturais. Carmela Zigoni, assessora do Inesc, aponta que a Emenda Constitucional nº 133, de 2024, alterou a lógica de distribuição de recursos. Segundo a especialista, a nova norma desvincula a proporção de candidaturas da cota financeira: “Se antes um partido tinha 50% de candidaturas negras, ele deveria repassar 50% para elas, e agora mesmo com 50% de candidaturas, o percentual é 30% do recurso”.
Além da questão financeira, o estudo destaca a necessidade de bancas de heteroidentificação para coibir fraudes. O fenômeno de migração racial também foi observado, com 338 candidatos que anteriormente se declaravam brancos passando a se identificar como pardos, e seis como pretos. Esse movimento foi registrado de forma similar em diferentes espectros ideológicos, sugerindo uma possível estratégia de adaptação às pautas raciais que ganham força no debate eleitoral.
Desigualdade de gênero e raça
Quando o recorte de gênero é aplicado, a disparidade torna-se mais evidente. Homens brancos permanecem como o maior grupo isolado, totalizando 6.688 candidaturas (32,7%). Em contraste, o crescimento da participação feminina foi tímido, com um aumento de apenas 1,5% no total de mulheres concorrendo, sendo que a presença de mulheres negras avançou apenas 0,5%. Atualmente, mulheres negras representam 18,2% do total de candidaturas.
Carmela Zigoni reforça que a presença nas listas partidárias é apenas uma das variáveis. O acesso efetivo a financiamento, estrutura de campanha e tempo de propaganda continua sendo decisivo para o sucesso eleitoral. A análise completa, que será divulgada ao final de setembro, deve aprofundar como esses fatores impactam a equidade na disputa, evidenciando que, apesar do crescimento numérico, a representatividade real ainda enfrenta barreiras significativas no cenário político nacional.







