O mês de Janeiro Branco, dedicado à conscientização sobre a saúde mental, reforça a necessidade de olhar para o bem-estar em todas as fases da vida. Nesse contexto, uma pesquisa crucial apoiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) lançou luz sobre os profundos impactos emocionais que a pandemia da COVID-19 causou na população idosa.
O sofrimento psíquico de pessoas com 60 anos ou mais foi muito além dos riscos físicos da doença. O isolamento social forçado, o medo constante da morte, as perdas afetivas e a sobrecarga de informações negativas criaram um cenário de crise que afetou profundamente a saúde mental dos idosos, exigindo novas estratégias de enfrentamento, conforme detalha o estudo financiado pela FAPDF.
Intitulada “Percepções de idosos infectados e não infectados pelo SARS-CoV-2 sobre o envelhecimento, morte e saúde mental: uma abordagem qualitativa e ecumênica”, a pesquisa foi desenvolvida na Universidade Católica de Brasília (UCB). O projeto recebeu um investimento de R$ 70 mil da FAPDF, através do edital Demanda Espontânea, e foi coordenado pelo pesquisador Vicente Paulo, especialista em Gerontologia e Saúde Mental.
Vicente Paulo explica que a complexidade do envelhecer exige uma visão holística. “Envelhecer é um processo complexo, que vai muito além dos aspectos biológicos. Envolve dimensões emocionais, sociais, culturais e espirituais que precisam ser consideradas quando falamos de saúde mental e cuidado com a população idosa”, afirma o pesquisador, sublinhando a importância de entender as vivências subjetivas desse grupo.
Religiosidade e Espiritualidade como Fatores de Proteção
A crise sanitária evidenciou a intensa vulnerabilidade da população idosa, tanto física quanto emocionalmente. O afastamento do convívio social e a vivência do luto impactaram diretamente o bem-estar desse grupo. Diante desse cenário desafiador, o estudo buscou identificar quais fatores ajudaram a proteger a saúde mental dos idosos em contextos extremos, como o vivido durante a pandemia.
A religiosidade e a espiritualidade emergiram como elementos centrais para a compreensão de como muitos idosos lidaram com a solidão, o medo da morte e o sofrimento psíquico. Diferentemente de abordagens puramente quantitativas, a pesquisa da UCB adotou uma metodologia qualitativa e ecumênica, permitindo que os idosos expressassem diretamente suas narrativas, medos, esperanças e estratégias pessoais de enfrentamento.
O caráter ecumênico do estudo foi fundamental, pois considerou de forma aberta e inclusiva diversas crenças e visões de mundo. A análise contemplou desde o catolicismo, protestantismo e espiritismo, até religiões de matriz africana, judaísmo, islamismo, espiritualidades não institucionais e a não religiosidade. “A pesquisa mostra que a religiosidade e a espiritualidade, em suas diferentes expressões, foram importantes estratégias de enfrentamento para muitos idosos. Nosso objetivo foi ouvir essas experiências com respeito, sem privilegiar crenças específicas”, ressalta Vicente Paulo.
Políticas Públicas e Inovação no Cuidado Integral
Para Leonardo Reisman, diretor-presidente da FAPDF, o apoio a estudos como este é vital para conectar a ciência às necessidades reais da sociedade. “Investir em pesquisas que olham para as pessoas, para suas vivências e para os desafios concretos do envelhecimento é uma forma de transformar conhecimento científico em impacto social. A FAPDF tem o compromisso de apoiar estudos que contribuam para políticas públicas mais humanas, inclusivas e conectadas com a realidade do Distrito Federal”, destaca Reisman.
Os resultados da investigação oferecem subsídios importantes para o planejamento de políticas públicas voltadas à saúde mental da população idosa, especialmente em situações de emergência sanitária. O estudo aponta que o senso de comunidade, a religiosidade e a espiritualidade podem funcionar como poderosos fatores de proteção emocional. Isso indica a urgência de ações mais integradas, que dialoguem ativamente com redes de apoio, instituições comunitárias e religiosas já estabelecidas nos territórios.
Um desdobramento prático da pesquisa foi a criação do aplicativo experimental “Eu Confio”. Concebido como uma solução tecnológica para apoio emocional e espiritual de idosos, o app foi estruturado de forma ecumênica e testado em dispositivos móveis acessíveis. Embora o aplicativo tenha sido descontinuado após o término do projeto, ele permanece como um exemplo concreto de como os achados científicos podem se materializar em soluções inovadoras, promovendo o cuidado integral e a saúde mental da população idosa.



