Edição Brasília

A resistência histórica do voto feminino contra a misoginia

Entenda a persistência da misoginia contra o voto feminino no Brasil e a importância da defesa constitucional dos direitos das mulheres.
A resistência histórica do voto feminino contra a misoginia

A história do sufrágio feminino no Brasil é marcada por uma luta constante contra a resistência do Estado e de setores conservadores da sociedade. Desde o final do século XIX, parlamentares utilizavam argumentos misóginos para impedir a participação feminina na política, sob a alegação de que o voto retiraria a “santidade” das mulheres. Mais de 130 anos depois, discursos similares ainda ecoam, como as recentes declarações do influenciador Paulo Figueiredo questionando a capacidade eleitoral feminina.

Continuidade da lógica patriarcal

Para Fernanda Abreu, professora da UERN, a linguagem pode ter se modernizado, mas a lógica patriarcal permanece inalterada. “Direitos não se mantêm sozinhos. Eles exigem luta permanente”, afirma. A estudiosa alerta que discursos que questionam o voto feminino violam diretamente o Artigo 14 da Constituição Federal de 1988, que garante o sufrágio universal sem distinção de sexo, configurando, em última análise, uma postura inconstitucional e potencialmente criminosa.

Ameaças e estratégia antigênero

As falas recentes, que se conectam a movimentos antifeministas norte-americanos, são vistas por especialistas como parte de uma estratégia mais ampla para barrar novas evoluções nos direitos das mulheres. Cibele Tenório, pesquisadora da UnB e biógrafa da sufragista Almerinda Gama, destaca que a recorrência desses ataques, embora absurda, é um sintoma do machismo estrutural brasileiro. Ela ressalta que as sufragistas do século XX foram fundamentais para garantir direitos que hoje precisam ser defendidos com vigilância constante.

A importância da memória

A trajetória de Almerinda Gama, uma das primeiras mulheres negras a atuar na política nacional, serve como lembrete da importância da representatividade. As estudiosas enfatizam que, embora uma revogação formal do voto feminino pareça improvável, as ofensivas antigênero buscam criar um ambiente de intimidação. Manter o debate público sobre a importância da cidadania feminina é, portanto, uma ferramenta essencial para preservar as conquistas democráticas alcançadas após décadas de resistência.