A trajetória de Leandra Lacerda, 52 anos, reflete uma realidade enfrentada por muitas profissionais do setor doméstico no Brasil. Com quatro décadas de experiência, ela relata ter sofrido pressões explícitas de empregadores durante períodos eleitorais. Em uma de suas passagens profissionais, a empregadora chegou a gritar para que ela votasse em um candidato específico, um comportamento que se repetiu em diversas ocasiões ao longo dos últimos três ciclos de votação.
Combate à invisibilidade e ao assédio
Atualmente atuando como secretária de comunicação da Federação Nacional de Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Leandra decidiu transformar sua vivência em ação coletiva. A entidade lançou a campanha “Não passaremos pano”, em parceria com a organização Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos. O objetivo é dar visibilidade às diversas formas de violência, incluindo o assédio eleitoral, que ocorre em um ambiente marcado pela solidão e pela dificuldade de fiscalização.
Segundo o procurador Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional da Coordigualdade, o assédio eleitoral caracteriza-se pelo uso da autoridade do empregador para constranger, intimidar ou influenciar as escolhas políticas do trabalhador. “O empregador exige até o título de eleitor e informações sobre a zona eleitoral onde essa pessoa vai votar”, alerta o procurador, destacando que ameaças de demissão ou promessas de vantagens indevidas são práticas ilegais.
Como realizar denúncias
As autoridades reforçam que o assédio eleitoral é uma violação grave. Trabalhadoras que se sentirem coagidas devem reunir provas, como mensagens, áudios e outros registros, e encaminhá-las ao Ministério Público do Trabalho. É possível realizar denúncias pela internet ou presencialmente nas procuradorias, com a opção de solicitar sigilo de identidade para evitar represálias.
A iniciativa da Themis reforça que a democracia plena é incompatível com cenários onde a trabalhadora precisa escolher entre sua liberdade política e a manutenção de sua fonte de renda. A campanha busca conscientizar a categoria de que desrespeitos dessa natureza não devem ser aceitos, independentemente das desigualdades de classe, gênero ou raça que marcam a relação de trabalho doméstico.







