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Povo Parakanã retoma território na TI Apyterewa após retirada de invasores

Conheça a história de resistência do povo Parakanã na TI Apyterewa após a retirada de invasores e os planos para recuperar a floresta no Pará.
Povo Parakanã retoma território na TI Apyterewa após retirada de invasores

Após anos de conflitos e ocupação ilegal, o povo Parakanã finalmente começa a retomar o controle efetivo da Terra Indígena (TI) Apyterewa, localizada no sudeste do Pará. A reocupação ocorre após uma complexa operação de desintrusão, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que visou retirar produtores rurais e grileiros que ocupavam o território indevidamente. Embora o clima seja de esperança pela devolução simbólica da terra, os desafios para garantir a segurança e a integridade da floresta ainda são imensos.

A TI Apyterewa, com seus 773 mil hectares, foi historicamente uma das áreas mais pressionadas pelo desmatamento na Amazônia Legal. A presença de cerca de 50 mil cabeças de gado e uma infraestrutura urbana ilegal, que incluía postos de gasolina, comércios e igrejas dentro do território, transformaram a região em um epicentro de tensões. Segundo Nilton Tubino, que coordenou as ações pela Casa Civil, o processo em Apyterewa foi o mais crítico entre os nove territórios indígenas que passaram por operações semelhantes, devido à forte interferência política e de fazendeiros locais.

Violência e Resistência no Território

Apesar da retirada oficial da maioria dos não indígenas em março de 2024, a transição não ocorreu sem derramamento de sangue. A resistência de grupos que lucravam com a ocupação ilegal resultou em episódios trágicos, como o assassinato de Marcos Antônio Pereira da Cruz, um vaqueiro contratado pelo Ibama para auxiliar na retirada do gado remanescente. O crime, que segue sob investigação sigilosa da Polícia Federal, é visto por autoridades do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) como um ataque direto ao Estado brasileiro.

Os próprios Parakanã continuam sendo alvo de intimidações constantes. A associação Tato’a, que representa o povo, relatou ataques a tiros contra veículos e tentativas de invasão às aldeias mesmo após a desintrusão. O cacique-geral Mamá Parakanã afirma que, apesar das ameaças, o povo permanece firme. Para as lideranças, a posse do território é um direito constitucional inegociável, e a presença física dos indígenas nas áreas limites é a principal estratégia para evitar novos avanços da grilagem.

Recuperação Ambiental e o Futuro da Floresta

Os dados ambientais já refletem a mudança de paradigma na região após a intervenção estatal. O monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicou uma queda drástica de mais de 90% no desmatamento. Enquanto em 2022 a derrubada da mata atingiu o pico de 102 km², os números recentes mostram uma redução para 7,5 km², permitindo que a fauna local comece a retornar às áreas antes degradadas pela pecuária extensiva.

O foco da comunidade agora se volta para a regeneração produtiva. Wenatoa Parakanã, presidente da associação Tato’a, destaca que o próximo grande passo é o reflorestamento em larga escala das zonas devastadas. Mulheres da comunidade já recebem capacitação técnica para a coleta, secagem e plantio de sementes nativas. Esse esforço coletivo visa não apenas restaurar a biodiversidade, mas também garantir a soberania cultural do povo Parakanã, que depende da floresta preservada para suas práticas tradicionais de caça e coleta.

Para consolidar esse novo momento, o Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmou o reforço do efetivo da Força Nacional na região, incluindo o uso de drones para vigilância. Como aponta a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a manutenção da presença do Estado é o fator determinante para assegurar que os Parakanã possam exercer plenamente sua posse e proteger o que resta da floresta amazônica no sudeste paraense.