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Musculação ajuda a prevenir demência em idosos e melhora memória, aponta estudo brasileiro

Pesquisa da Unicamp comprova que exercícios de força preservam regiões do cérebro e promovem bem-estar físico e mental em pessoas acima de 60 anos.
Casal idoso fazendo musculação
Foto: Freepik

Atividade física fortalece o cérebro na terceira idade

A musculação para idosos vai além do fortalecimento muscular. Segundo um estudo da Unicamp, ela também protege o cérebro contra a demência. A pesquisa, publicada na revista GeroScience, foi realizada pelo Instituto Brainn, com apoio da Fapesp, e trouxe descobertas importantes para o envelhecimento saudável.

Os cientistas acompanharam 44 idosos com comprometimento cognitivo leve, estágio que antecede o Alzheimer. Metade deles passou a praticar musculação duas vezes por semana. Como resultado, os exames mostraram a preservação de áreas cerebrais fundamentais, como o hipocampo e o pré-cúneo.

Essas regiões se associam à memória e à orientação espacial. Portanto, manter sua integridade é essencial para retardar os efeitos do envelhecimento.

Efeitos positivos surgem em poucos meses

Além das imagens cerebrais, os pesquisadores aplicaram testes neuropsicológicos nos voluntários. A doutoranda Isadora Ribeiro, autora principal do artigo, afirma que as melhorias surgiram em apenas seis meses. “Os praticantes de musculação tiveram ganhos de memória e anatomia cerebral. Cinco deles saíram do diagnóstico de comprometimento cognitivo”, destaca.

Enquanto os idosos treinavam, os cientistas perceberam também alterações positivas na substância branca do cérebro. Essa estrutura conecta diferentes áreas por meio de sinapses e, assim, mantém o cérebro ativo e funcional.

Além disso, a pesquisa demonstrou que quanto maior a constância, mais evidentes foram os resultados. Isso indica que a musculação pode ser uma aliada de longo prazo na prevenção de doenças degenerativas.

Histórias que inspiram

A professora aposentada Shirley de Toro é um exemplo vivo dos benefícios da musculação. Ela treina no Sesc Santana, em São Paulo, há 17 anos. Inicialmente, buscava aliviar dores após um atropelamento. No entanto, os ganhos foram muito além.

“Comecei por fisioterapia, mas as dores só passaram quando adicionei os exercícios de força”, conta Shirley. Ela também superou um quadro de epilepsia e afirma que manter o corpo em movimento faz parte da sua saúde mental.

Durante a pandemia, ela se manteve ativa com treinos online. Por isso, enfrentou com mais equilíbrio emocional a perda de sua mãe e o isolamento. “Hoje, quando fico sem treinar, sinto falta. O corpo pede esse cuidado”, diz.

Especialistas defendem a musculação na terceira idade

A técnica Alessandra Nascimento, do Sesc São Paulo, reforça que os treinos de força beneficiam corpo e mente. “Além de ganhos físicos, há melhora no foco, na saúde mental e na cognição. E isso se aplica também à musculação com peso corporal, elásticos ou molas”, explica.

Muitos ainda acreditam que idosos devem fazer apenas atividades leves. No entanto, Alessandra afirma que a perda de massa muscular começa por volta dos 30 anos e acelera com a idade. Portanto, trabalhar força e resistência ajuda a manter a independência e a prevenir quedas.

Além disso, ela destaca que médicos estão recomendando musculação para idosos com mais frequência, porque os estudos científicos vêm reforçando sua eficácia.

Mais acesso por meio de políticas públicas

A realidade, porém, ainda limita o acesso de muitos idosos à atividade física regular. Por isso, Alessandra defende a inclusão de educadores físicos nas unidades de saúde do SUS. “É preciso integrar o médico, o fisioterapeuta e o profissional de educação física em uma abordagem preventiva e multidisciplinar”, afirma.

Hoje, cerca de 2,7 milhões de brasileiros com mais de 60 anos convivem com algum tipo de demência. De acordo com o Ministério da Saúde, esse número pode dobrar até 2050. Sendo assim, estimular práticas como a musculação representa um investimento acessível e eficaz na saúde pública.