A dor crônica, muitas vezes invisível aos olhos e aos exames laboratoriais, impõe limitações severas à rotina de milhares de brasileiros. Para quem convive com a fibromialgia, atividades simples do cotidiano tornam-se desafios monumentais devido à sensibilidade exacerbada e ao cansaço persistente. No contexto da campanha Fevereiro Roxo, o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), sob gestão do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), reforça seu compromisso com esses pacientes por meio de uma estrutura de acolhimento especializada: o Ambulatório da Dor.
A fibromialgia é uma síndrome clínica que se manifesta principalmente através de dores musculares difusas e pontos de sensibilidade em tendões e músculos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a condição afeta cerca de 3% da população nacional. O perfil epidemiológico revela uma predominância feminina marcante: de cada dez diagnósticos, entre sete e nove ocorrem em mulheres, especialmente na faixa etária dos 30 aos 60 anos. Contudo, especialistas alertam que a síndrome não escolhe idade ou gênero, podendo atingir também homens, idosos e crianças.
O desafio do diagnóstico e a nova legislação
Um dos maiores obstáculos enfrentados pelos pacientes é o estigma da invisibilidade. Por não apresentar alterações físicas aparentes ou marcadores em exames de imagem, a fibromialgia exige um diagnóstico estritamente clínico. A reumatologista do HRSM, Rafaela Cruz, explica que o cérebro desses indivíduos interpreta sinais sensoriais comuns como estímulos extremamente dolorosos. Fatores emocionais, como ansiedade e depressão, frequentemente agravam o quadro, criando um ciclo de sofrimento que demanda intervenção técnica e empática.
O cenário jurídico e social para esses pacientes avançou significativamente com a entrada em vigor da Lei nº 15.176/2025. A nova legislação reconhece a fibromialgia e doenças correlatas como condições que podem configurar deficiência, garantindo direitos fundamentais, como o atendimento multidisciplinar e a capacitação de profissionais de saúde. Essa mudança legal é um marco na validação da dor do paciente e na estruturação de políticas públicas mais eficazes.
Ambulatório da Dor: Estrutura e Metodologia
No Hospital Regional de Santa Maria, o tratamento da dor crônica é conduzido de forma estruturada através de um programa de 12 encontros semanais. O objetivo central do Ambulatório da Dor transcende o simples alívio sintomático; a equipe busca promover a educação em saúde e devolver a autonomia ao paciente. Durante o programa, os participantes recebem suporte de uma equipe multiprofissional composta por fisioterapeutas, psicólogos e terapeutas ocupacionais.
A fisioterapia desempenha um papel crucial ao ensinar exercícios de alongamento, técnicas de relaxamento e auriculoterapia, estratégias que os pacientes podem aplicar autonomamente fora do ambiente hospitalar. Paralelamente, o suporte psicológico oferece o acolhimento necessário para lidar com os impactos emocionais da dor contínua, enquanto a terapia ocupacional foca na adaptação das atividades diárias para preservar a independência funcional do indivíduo.
Acesso ao tratamento e humanização
Para ingressar no programa do Ambulatório da Dor, o paciente deve passar por um processo de regulação. O acesso ocorre mediante encaminhamento médico, geralmente originado nas especialidades de reumatologia ou ortopedia. Após a identificação de um padrão de dor persistente, o paciente é direcionado para uma lista de espera organizada pela equipe de enfermagem. Os grupos são formados periodicamente, reunindo em média 15 participantes por turma, o que favorece a troca de experiências e o fortalecimento emocional coletivo.
Neste Fevereiro Roxo, o HRSM reafirma que, embora a fibromialgia ainda não tenha cura, o acompanhamento contínuo e especializado é a chave para garantir qualidade de vida. Através da união entre ciência, legislação e humanização, o hospital busca transformar a realidade de quem, por muito tempo, teve sua dor ignorada pela sociedade.



