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Exposição de Caru Brandi marca estreia da cultura trans no CNFCP do Rio

Conheça a exposição de Caru Brandi no Rio de Janeiro. A mostra 'Fabulações transviadas' celebra a arte transmasculina e redefine a cultura popular no CNFCP.
Exposição de Caru Brandi marca estreia da cultura trans no CNFCP do Rio

O cenário cultural do Rio de Janeiro recebe um marco histórico com a chegada da exposição individual de Caru Brandi. O artista gaúcho, transmasculino e não-binário, apresenta a mostra “Fabulações transviadas”, que inaugura o calendário de 2026 do programa Sala do Artista Popular (SAP), no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan). Localizada no bairro do Catete, a exposição não apenas exibe o talento técnico de Brandi, mas também estabelece um precedente fundamental para a representatividade LGBTQIAPN+ em instituições federais.

Para Caru Brandi, a oportunidade de expor no Rio de Janeiro representa uma “abertura de caminhos”. Ele destaca que ser a primeira pessoa trans a ocupar este espaço específico é uma conquista coletiva. Em entrevista, o artista enfatizou que espera que sua presença se desdobre em políticas institucionais permanentes, incentivando outras entidades culturais a acolherem saberes e estéticas oriundas da comunidade trans.

A trajetória de Caru Brandi e a transição artística

A produção de Caru Brandi é um reflexo direto de sua jornada pessoal e política. Inicialmente, o artista expressava sua criatividade por meio da tatuagem, com um estilo voltado ao realismo. No entanto, o processo de transição de gênero, iniciado com maior intensidade em 2018, alterou radicalmente sua percepção estética. Ao se reconhecer em outras pessoas transmasculinas e não-binárias, Caru abandonou o realismo em favor de uma linguagem mais ficcional e lúdica.

Durante a pandemia, o artista concluiu a faculdade de Direito, mas optou por não seguir a carreira jurídica ao perceber que seu verdadeiro propósito residia nas artes visuais. Atualmente cursando a graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Caru busca a profissionalização acadêmica para complementar sua vivência prática. Desde 2024, ele atua como arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, consolidando sua posição como um agente transformador através da educação e da arte.

Coletividade e a potência da cultura ballroom

A exposição “Fabulações transviadas” vai além das obras estáticas. A abertura do evento contou com uma performance vibrante dos artistas Maru e Kayodê Andrade, que trouxeram para o museu a energia da cultura ballroom. Este movimento, que nasceu nos anos 70 nos Estados Unidos como forma de resistência das populações negra, latina e LGBTQIA+, serve como um pilar de apoio e expressão para a comunidade transmasculina brasileira.

Caru Brandi reforça que seu trabalho, embora baseado em vivências individuais, fala essencialmente sobre coletividade. Ao convidar outros artistas para a abertura, ele busca combater a invisibilidade que ainda cerca os homens trans e pessoas transmasculinas. A mostra funciona, portanto, como uma ação educacional, oferecendo ao público a chance de compreender que a existência trans é plural e não se limita a um único modelo ou estereótipo.

Novos horizontes para a arte popular brasileira

A curadoria e a pesquisa da exposição ficaram a cargo do antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva. Segundo o especialista, a mostra desafia dicotomias tradicionais entre o humano e a natureza, o masculino e o feminino. A iniciativa está alinhada aos esforços recentes do Iphan para mapear e valorizar o patrimônio cultural da comunidade LGBTQIAPN+, conforme diretrizes estabelecidas em portarias recentes do instituto.

Rafael Barros, diretor do CNFCP, observa que o trabalho de Caru Brandi tensiona e expande o próprio conceito de “arte popular”. Ao integrar cerâmicas e pinturas que narram a transição de gênero ao acervo da Sala do Artista Popular, a instituição reconhece as existências queers como partes integrantes e vibrantes do tecido social brasileiro. A exposição oferece uma nova perspectiva sobre o que significa ser um artista popular na contemporaneidade, unindo tradição técnica e urgência social.

A mostra “Fabulações transviadas” segue aberta ao público até o dia 22 de abril, com entrada gratuita. Os visitantes podem conferir as obras de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Todas as peças expostas, que incluem criações inéditas desenvolvidas especialmente para esta temporada no Rio, estão disponíveis para venda.