A celebração do Carnaval no Distrito Federal ganhou um significado especial na ala de psiquiatria do Hospital de Base (HBDF). Na última terça-feira de folia, o tradicional silêncio dos corredores hospitalares deu lugar à música, ao riso e à descontração com a passagem do bloquinho “Doido é Tu”. A iniciativa, organizada pelo Serviço Auxiliar de Voluntários (SAV), transformou a rotina de pacientes e profissionais da unidade, que é administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF).
O evento não foi apenas uma festa passageira, mas uma estratégia consolidada de cuidado humanizado. Com direito a marchinhas, o famoso “trenzinho”, brincadeiras com espuma e muita animação, o bloco conseguiu envolver até mesmo os pacientes mais introspectivos. Segundo a organização, o objetivo central foi promover o acolhimento e reforçar a ideia de que o tratamento de saúde mental deve incluir momentos de integração social e alegria, combatendo o isolamento severo.
A importância da humanização na saúde mental
A humanização no ambiente hospitalar é um pilar fundamental para a recuperação de pacientes, especialmente em alas psiquiátricas, onde o estigma e a solidão costumam ser desafios diários. Vandelícia Dias, presidente do SAV, destaca que a adesão à atividade foi total e emocionante. “É sempre gratificante viver esses momentos com eles. É quando se sentem acolhidos, felizes e parte de algo maior”, afirma a gestora. Ela relata que a movimentação foi tão contagiante que pacientes que inicialmente preferiam permanecer em seus quartos acabaram se juntando à folia após verem a alegria dos colegas.
Ações como o bloquinho “Doido é Tu” ajudam a quebrar preconceitos associados aos transtornos mentais. Ao tratar o paciente como um cidadão que tem direito ao lazer e à cultura, a equipe de saúde fortalece a autoestima e o vínculo terapêutico. Especialistas defendem que atividades lúdicas estimulam a produção de neurotransmissores ligados ao bem-estar, o que auxilia diretamente no processo clínico de estabilização emocional e na resposta aos tratamentos convencionais.
Construção coletiva e protagonismo do paciente
Um dos grandes diferenciais desta edição do Carnaval no Hospital de Base foi o envolvimento direto dos pacientes em cada etapa da organização. Os preparativos começaram uma semana antes da festa, com oficinas de terapia ocupacional e artesanato. Durante esses encontros, os internos confeccionaram suas próprias máscaras e plaquinhas decorativas com frases carnavalescas. Até mesmo o nome do bloco, “Doido é Tu”, foi uma escolha coletiva, trazendo um tom de humor e ressignificação da própria condição de forma leve e empoderada.
Vandelícia Dias ressalta que esse processo de construção coletiva é essencial para o sucesso da recuperação. “Eles se envolveram em tudo: criaram os adereços, ajudaram a decidir o nome e aguardaram ansiosos pelo dia da comemoração. Foi um processo muito bonito de se observar”, pontua. Para a presidente do SAV, a festa prova que a rotina hospitalar pode ser transformada por meio da empatia.
O encerramento da festividade deixou um rastro de esperança e renovação entre os presentes. A integração entre a equipe multidisciplinar e os pacientes demonstra que o IgesDF busca modelos de gestão que priorizam a dignidade humana acima de tudo. Como bem define Vandelícia, “ações humanizadas no cuidado em saúde mental estimulam a convivência e fortalecem vínculos. Em meio à rotina hospitalar, festa, alegria e tratamento podem sim caminhar juntos”, conclui, reforçando o compromisso do Hospital de Base com uma medicina mais sensível.



