O início das hostilidades entre os Estados Unidos, Israel e o Irã foi marcado por uma tragédia de proporções devastadoras. No último sábado (28), um ataque aéreo atingiu uma escola de educação infantil feminina na cidade de Minab, no sul do país, resultando na morte de 168 crianças. O episódio, que também deixou mais de 90 feridos, gerou uma onda de indignação global e colocou em xeque as justificativas humanitárias frequentemente utilizadas para intervenções militares no Oriente Médio.
Na terça-feira (3), uma multidão vestida de luto acompanhou o velório das vítimas. As imagens de valas comuns e caixões enfileirados circularam rapidamente pelas redes sociais e veículos de imprensa, simbolizando o custo humano imediato do novo conflito. Especialistas apontam que a escolha do alvo — uma instituição de ensino para meninas — é particularmente simbólica e cruel, dado o histórico de lutas das mulheres iranianas por direitos e autonomia dentro de sua própria sociedade.
A contradição da intervenção externa e os direitos humanos
Durante décadas, as potências ocidentais utilizaram as violações de direitos humanos no Irã como argumento central para isolar o regime de Teerã. No entanto, o bombardeio em Minab revela uma desconexão profunda entre o discurso de “libertação” e a realidade das operações militares em solo. A socióloga Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília (UnB), argumenta que o ataque demonstra que a guerra atual não possui relação real com a promoção da democracia.
Para Bento, a ofensiva pode estar alinhada à chamada Doutrina Dahiya. Essa estratégia militar, utilizada anteriormente pelo exército israelense, foca na destruição de infraestrutura civil em larga escala para pressionar a população local contra seus governantes. “Ao atacar uma escola, a mensagem é de que não sobrará pedra sobre pedra”, avalia a pesquisadora, traçando paralelos com as táticas observadas em outros conflitos recentes na região, como na Faixa de Gaza.
O protagonismo e a resistência das mulheres iranianas
A jornalista Soraya Misleh destaca que as mulheres iranianas possuem uma longa trajetória de resistência interna que dispensa intervenções estrangeiras violentas. O movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, que ganhou força em 2022 após a morte de Mahsa Amini, é um exemplo claro dessa mobilização orgânica. Misleh enfatiza que o destino do Irã deve ser decidido por seu próprio povo, e não por potências externas cujas bombas atingem justamente aquelas que dizem querer proteger.
Além disso, dados do Banco Mundial e da Unesco mostram que, apesar das restrições impostas pelo regime teocrático, o Irã registrou avanços sociais significativos nas últimas décadas. A taxa de alfabetização feminina saltou de 30% na década de 1970 para 85% nos anos 2000, enquanto a presença de mulheres nas universidades chegou a 60%. A pesquisadora Natália Ochôa, da UFRGS, questiona a lógica de atacar escolas sob o pretexto de salvação: “Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”, indaga.
Investigações internacionais e responsabilidades militares
No cenário internacional, o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, exigiu uma investigação rápida e minuciosa sobre o ocorrido. Enquanto a Casa Branca afirma estar apurando os fatos, Israel nega qualquer ligação com o ataque à escola de Minab. Contudo, uma análise do jornal New York Times, baseada em imagens de satélite e vídeos verificados, sugere que a escola foi atingida por um ataque de precisão durante uma ofensiva dos EUA contra uma base naval próxima.
O major-general português Agostinho Costa levanta a possibilidade de um erro técnico, observando que mísseis de cruzeiro possuem uma margem de erro que pode ser fatal em áreas densamente povoadas. Independentemente de ter sido um erro de alvo ou uma ação deliberada, o massacre em Minab permanece como um marco sombrio do início desta guerra, expondo a extrema vulnerabilidade de civis diante da complexa geopolítica global.



