O cineasta Jorge Bodansky apresentou seu mais novo documentário, Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky, durante a mostra competitiva ambiental do festival Bonito Cinesur, em Mato Grosso do Sul. O filme é um mergulho autobiográfico que parte de um registro fortuito realizado em 1973, quando o diretor sobrevoava a região de Aripuanã (MT) para filmar a Cidade Laboratório de Humboldt, um projeto da ditadura militar.
Imagens do passado e a realidade atual
Durante o voo, Bodansky captou imagens de indígenas Paiter Suruí isolados tentando flechar sua aeronave. O material, esquecido por décadas, serviu como ponto de partida para o cineasta revisitar sua carreira e a própria história da região. “O objetivo do sobrevoo não eram os indígenas, eles apareceram por acaso. Isso me intrigou muito”, afirmou o diretor.
Ao retornar à região cinco décadas depois, Bodansky encontrou um cenário drasticamente alterado. O que antes era floresta contínua, hoje é tomado por extensas plantações de soja. O cineasta ressalta que o documentário não é apenas uma retrospectiva, mas uma denúncia sobre a continuidade da forma de ocupação da Amazônia iniciada no regime militar.
Um olhar que permanece atento
Bodansky defende que, apesar das mudanças no cenário, sua postura como cineasta permanece inalterada. “O título do filme é ‘Um Olhar Inquieto’ porque acho que meu olhar continua inquieto. Eu continuo fazendo esse tipo de cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social”, pontuou. Para ele, a visão governamental sobre a Amazônia, que ignora a presença e a luta dos povos locais, persiste independentemente da gestão de turno.
O documentário destaca o impacto trágico do contato para os Paiter Suruí, afetados por doenças e violência, e questiona a lógica de exploração econômica que ainda prevalece na região. Com uma narrativa que une passado e presente, Bodansky reafirma a importância do cinema como ferramenta de observação crítica da realidade brasileira.



