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“Parem de nos matar”: Mulheres protestam contra feminicídio e escala 6×1 em Brasília

Mulheres protestam em Brasília contra o feminicídio, exigem o fim da escala 6x1 e criticam a falta de verbas para políticas públicas no Distrito Federal.
"Parem de nos matar": Mulheres protestam contra feminicídio e escala 6x1 em Brasília

O grito por sobrevivência ecoou forte no centro da capital federal neste domingo (8). Centenas de manifestantes ocuparam as imediações da Torre de TV para marcar o Dia Internacional da Mulher com uma exigência central: o fim da violência de gênero. Sob o lema “Parem de Nos Matar”, o ato reuniu coletivos feministas, sindicatos, partidos políticos e movimentos culturais em uma mobilização que uniu o luto pelas vítimas de feminicídio à luta por direitos trabalhistas e justiça social.

A manifestação em Brasília destacou a urgência de políticas públicas eficazes diante de estatísticas alarmantes. Segundo dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, um número que impulsionou a indignação das mulheres presentes. A artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, sintetizou o sentimento coletivo através de sua obra intitulada Medo, que retrata um revólver apontado para uma mulher. Para ela, o medo é uma constante na vida da brasileira, seja no ambiente doméstico, no trabalho ou nas ruas.

Feminicídio e a urgência de políticas públicas

Durante o trajeto, lideranças de movimentos sociais cobraram a implementação real do Pacto Nacional contra o Feminicídio. Raquel Braga Rodríguez, coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília, enfatizou que o ato serve como um termômetro da preocupação feminina com a segurança. Embora o governo federal tenha firmado compromissos para a adoção de medidas contra a violência de gênero no início de fevereiro, as ativistas exigem que essas promessas se transformem em redução concreta nos índices de criminalidade.

A presença de figuras históricas também marcou o evento. Lydia Garcia, pioneira de Brasília e militante do movimento de mulheres negras, participou da marcha aos 88 anos. Professora de música aposentada e mãe de cinco filhos, Lydia destacou que a luta das mulheres negras é fundamental para impor ao país uma nova realidade contra o feminicídio e a violência que atinge a juventude negra, reforçando a interseccionalidade das pautas apresentadas no 8 de março.

Críticas ao GDF e a pauta da escala 6×1

O Governo do Distrito Federal (GDF), sob a gestão de Ibaneis Rocha e Celina Leão, foi um dos principais alvos de críticas. Representantes da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) denunciaram a escassez de recursos para políticas de proteção à mulher. Jolúzia Batista, integrante da AMB, classificou como um “escândalo financeiro” a situação envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB) e a tentativa de compra do Banco Master, enquanto faltam verbas para capacitação profissional e campanhas educativas de combate à violência.

Além da segurança, a pauta trabalhista ganhou destaque com a reivindicação pelo fim da escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso). Thamy Frisselly, uma das organizadoras do ato, explicou que essa jornada é especialmente cruel para as mulheres, que frequentemente enfrentam duplas ou triplas jornadas ao conciliar o emprego com o cuidado da casa, de crianças e de idosos. O movimento defende que o tempo livre é essencial para a saúde mental, o estudo e o lazer das trabalhadoras.

Dez anos de resistência e solidariedade internacional

A Marcha Unificada do 8 de Março em Brasília celebrou sua décima edição, consolidando-se como o maior evento político feminista da capital. Thamy Frisselly relembrou os avanços conquistados na última década, como o aumento no número de delegacias especializadas e a maior abertura da sociedade para debater temas que antes eram silenciados, como o assédio nas ruas. Para as organizadoras, a educação de base e a pressão constante dos movimentos foram cruciais para que comportamentos abusivos passassem a ser reconhecidos e combatidos publicamente.

O protesto também demonstrou solidariedade internacional, com falas e cartazes denunciando o imperialismo e as ações militares em regiões como a Palestina, Irã, Cuba e Venezuela. Ao final do ato, as manifestantes reforçaram que a luta por orçamento público e por uma vida sem violência continua sendo a prioridade para garantir um futuro digno para todas as meninas e mulheres brasileiras.