O governo brasileiro está intensificando esforços para consolidar parcerias estratégicas com nações europeias, com foco especial na exploração e no processamento de minerais críticos e terras raras. Segundo o embaixador do Brasil na Alemanha, Rodrigo Baena Soares, o objetivo central não é apenas a extração, mas a integração do país na cadeia global de valor por meio da transferência de tecnologia e da industrialização local. Esses elementos são considerados vitais para a transição energética global e para o desenvolvimento de tecnologias de ponta.
Durante uma coletiva de imprensa realizada em Hannover, na Alemanha, o diplomata destacou que o Brasil possui reservas vastas, mas ainda precisa avançar no refino e na agregação de valor aos minérios. A declaração ocorreu durante os preparativos para a Hannover Messe, a maior feira de tecnologia industrial do mundo, que servirá de vitrine para cerca de 140 expositores brasileiros apresentarem inovações e buscarem novos negócios no mercado europeu.
A estratégia de agregação de valor e tecnologia
A visão diplomática brasileira rompe com o modelo tradicional de exportação de commodities brutas. Baena Soares enfatizou que a expectativa do governo é que a relação com a Europa, e especificamente com a Alemanha, evolua para um esquema de cooperação técnica. “É fundamental que pensemos na agregação de valor no Brasil. Queremos fazer parte da cadeia de suprimentos com produção nacional e participação ativa das nossas empresas”, defendeu o embaixador. A ideia é aproveitar o conhecimento técnico europeu para transformar o potencial mineral brasileiro em produtos acabados ou semi-processados.
Os minerais críticos, que incluem o lítio, cobalto, níquel, grafita e o nióbio, além das 17 terras raras, são componentes essenciais para a fabricação de baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares. Atualmente, o Brasil detém aproximadamente 23% das reservas mundiais de terras raras, mas a produção ainda não reflete essa abundância geológica. A parceria com a indústria alemã é vista como o catalisador necessário para que o país desponte como um dos líderes globais em refino e tecnologia mineral.
O Acordo Mercosul-União Europeia e o Multilateralismo
A busca por essas parcerias ocorre em um momento crucial de redefinição das relações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia. O embaixador ressaltou que a implementação do acordo de livre comércio entre os blocos enviará uma mensagem poderosa contra o protecionismo e as ações unilaterais que têm marcado o cenário geopolítico recente. Para o Brasil, o tratado representa a abertura de um mercado de 720 milhões de habitantes e a oportunidade de zerar tarifas sobre a vasta maioria dos bens exportados.
A Alemanha tem se mostrado uma das principais defensoras da conclusão do acordo, contrastando com resistências pontuais de outros países europeus. A expectativa é que a feira de Hannover também proporcione um encontro de alto nível entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e autoridades alemãs, reforçando os laços políticos e econômicos. O Brasil oferece um ambiente regulatório estável e uma matriz energética majoritariamente limpa, o que atrai investidores interessados em descarbonizar suas cadeias produtivas.
Relações comerciais e investimentos diretos
Os números reforçam a importância da Alemanha como parceiro comercial. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países atingiu a marca de US$ 20,9 bilhões. Embora o Brasil apresente um déficit comercial com a nação europeia — exportando US$ 6,5 bilhões e importando US$ 14,4 bilhões —, a Alemanha figura como o 11º maior comprador de produtos brasileiros e um dos dez maiores investidores diretos no país, com um estoque de investimentos que ultrapassa os 40 bilhões de euros.
Com mais de mil empresas alemãs operando em território brasileiro, a infraestrutura para novas parcerias já está estabelecida. O foco agora volta-se para a inovação e para a garantia de que o Brasil não seja apenas um fornecedor de matéria-prima, mas um protagonista tecnológico na nova economia verde. A Hannover Messe será o palco onde essa nova fase da diplomacia econômica brasileira tentará converter potencial geológico em soberania tecnológica e crescimento industrial.



