O cenário geopolítico global enfrentou uma nova escalada de tensão neste sábado (28), após ataques militares coordenados pelos Estados Unidos e Israel contra alvos no território iraniano. Diante deste conflito, o governo brasileiro, sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, optou por uma postura de extrema cautela. A estratégia busca equilibrar dois pilares fundamentais da política externa atual: a manutenção da harmonia no bloco BRICS, do qual o Irã é membro, e a preservação das delicadas negociações comerciais com o governo de Donald Trump.
Em nota oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty condenou a ofensiva e reforçou a necessidade de diálogo para alcançar a paz. O posicionamento reflete a tradição diplomática brasileira de defender o direito internacional e a proteção de civis e infraestruturas essenciais. No entanto, por trás do discurso protocolar, especialistas apontam que o Brasil se encontra em uma encruzilhada diplomática, onde qualquer movimento brusco pode comprometer interesses econômicos ou alianças estratégicas de longo prazo.
O Desafio de Equilibrar o BRICS e as Relações com Washington
A entrada formal do Irã no BRICS em 2024 alterou significativamente a dinâmica das relações de Brasília com Teerã. Como o grupo reúne potências como China e Rússia — ambas aliadas próximas dos iranianos —, o Brasil evita condenar o país de forma que possa isolá-lo dentro do bloco do Sul Global. Segundo Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o Itamaraty precisa encontrar uma “posição intermediária” que não antagonize nem o Irã, nem os Estados Unidos.
Essa neutralidade é testada pelo fato de o Brasil estar em meio a negociações cruciais com a administração Trump. Recentemente, o governo americano impôs tarifas de importação que atingiram diversos produtos brasileiros, chegando a taxas de 50% em alguns casos. Embora a Suprema Corte dos EUA tenha derrubado algumas dessas medidas, a ameaça de novas taxações de 10% permanece no horizonte, tornando a visita de Lula a Washington, prevista para o fim de março, um evento de alta sensibilidade política.
Impactos Econômicos e a Defesa da Autodeterminação
Além da diplomacia pura, o conflito no Oriente Médio traz riscos tangíveis para a economia brasileira. Leonardo Paz Neves, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), alerta que a principal preocupação imediata é o preço do petróleo. Uma escalada militar na região tende a elevar o valor do barril no mercado internacional, o que gera um efeito cascata de inflação no Brasil, impactando desde o preço dos combustíveis até a cadeia logística de diversos setores produtivos.
No campo comercial direto, o Irã é um parceiro relevante para o agronegócio nacional. O país é um grande importador de commodities brasileiras, especialmente soja, milho e proteínas animais. Em 2025, o fluxo comercial entre as duas nações atingiu a marca de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 15 bilhões). Portanto, uma desestabilização profunda no regime iraniano ou sanções ainda mais severas poderiam fechar portas importantes para os exportadores brasileiros, que já lidam com as incertezas das políticas protecionistas de Donald Trump.
Por fim, Williams Gonçalves, professor da UERJ, recorda que a cautela brasileira também é influenciada pela postura agressiva dos EUA na América do Sul, citando episódios recentes envolvendo a Venezuela. Para ele, o Brasil mantém sua defesa histórica do princípio de não ingerência e da autodeterminação dos povos. Apoiar intervenções estrangeiras voltadas para a mudança de regimes políticos seria uma ruptura drástica com os valores que fundamentam a diplomacia do país há décadas, especialmente em um momento em que o Brasil busca se consolidar como uma liderança equilibrada no cenário global.



