A jornada científica da professora Gislane Ferreira de Melo, da Universidade Católica de Brasília (UCB), nasceu de uma profunda motivação pessoal. Após perder familiares e uma orientadora para o câncer de mama, Gislane direcionou sua pesquisa não apenas para os impactos físicos da doença, mas também para as complexas dimensões emocionais e sociais que acompanham a recuperação. Hoje, essa vivência se materializa em um projeto de ponta que utiliza o exercício físico como uma poderosa ferramenta de enfrentamento.
Coordenando programas de pós-graduação em Educação Física e Psicologia na UCB, Gislane lidera, com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), uma investigação crucial. O objetivo é claro: descobrir como a prática orientada de exercícios pode amenizar os efeitos colaterais da hormonioterapia e, consequentemente, elevar a qualidade de vida de mulheres em fase de remissão.
O câncer de mama permanece como a principal causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil. Mesmo após superarem as etapas mais agressivas do tratamento — como cirurgia, quimioterapia e radioterapia — milhares de pacientes precisam conviver, por anos, com os efeitos persistentes da hormonioterapia. Dores articulares intensas, fadiga crônica debilitante, alterações de humor e distúrbios do sono são apenas alguns dos desafios que afetam profundamente a rotina e a vida social dessas sobreviventes.
O Protocolo Get Real & Heel Brasil
É neste cenário de necessidade que se insere o projeto “Interação entre Exercício Físico e Hormonioterapia em Mulheres em Remissão do Câncer de Mama”. Desenvolvido na UCB com fomento da FAPDF, a iniciativa adota uma abordagem integrada para investigar como um protocolo estruturado de exercícios físicos pode atuar como um tratamento complementar, contribuindo para o bem-estar físico, emocional e social.
O projeto brasileiro é inspirado no renomado programa internacional Get Real & Heel, desenvolvido há mais de 15 anos na University of North Carolina at Chapel Hill (UNC), nos Estados Unidos. Após obter autorização para a implementação do protocolo no Brasil, nasceu o Get Real & Heel Brasil, que opera de forma contínua na UCB. Atualmente, o programa oferece sessões gratuitas de exercício físico supervisionado, três vezes por semana, atendendo cerca de 30 mulheres sobreviventes do câncer de mama, muitas delas em pleno uso da hormonioterapia.
Exercício Personalizado como Estratégia Terapêutica
O grande diferencial do projeto reside na personalização e no rigor do acompanhamento multiprofissional. Antes de iniciar qualquer atividade, cada participante passa por uma avaliação abrangente que inclui histórico clínico, oncológico e medicamentoso, além de avaliações físicas, funcionais, psicológicas e sociais detalhadas. Essa triagem garante que o tratamento com exercício seja seguro e eficaz.
As sessões combinam estrategicamente exercícios aeróbicos, treinamento de força, e atividades focadas em mobilidade, equilíbrio e flexibilidade. A intensidade e o volume são ajustados individualmente, respeitando as limitações e necessidades de cada mulher, com monitoramento contínuo de sinais vitais e percepção de esforço. Segundo a coordenadora Gislane, o exercício físico transcende a atividade genérica e se estabelece como uma estratégia terapêutica não farmacológica, essencial durante o longo período de uso do tratamento hormonal.
Impacto Integral e Transformador
A pesquisa não se limita aos ganhos físicos. O projeto acompanha sistematicamente os impactos psicológicos, biológicos e sociais da prática. Indicadores como ansiedade, depressão, autoestima, imagem corporal, qualidade do sono e medo de recorrência da doença são avaliados. Além disso, o estudo utiliza ferramentas avançadas de inteligência artificial e machine learning para analisar biomarcadores moleculares e inflamatórios, permitindo identificar padrões e respostas ao treinamento ao longo do tempo.
Os benefícios relatados pelas participantes são notáveis. Elas experimentam uma redução significativa nas dores musculares e articulares, diminuição da fadiga, melhora na disposição diária e maior tolerância ao esforço físico. “Muitas mulheres chegam às sessões com cansaço extremo e fragilidade emocional, mas saem com outra disposição, outro humor e mais confiança em seus corpos”, destaca a pesquisadora. O exercício se torna um recurso ativo de enfrentamento, reconstruindo a autoestima e retomando a autonomia.
No aspecto social, o projeto promove a construção de vínculos afetivos duradouros, formando uma rede de apoio mútua baseada na escuta e na troca de experiências. O modelo de acolhimento é tão eficaz que o programa registra índices mínimos de faltas e nenhuma desistência, um reflexo direto do sentimento de pertencimento que ele proporciona.
Ciência Aplicada e Políticas Públicas
Além do impacto direto na vida das participantes, o projeto da UCB e FAPDF contribui para a formação de novos profissionais e fortalece a produção científica na área da oncologia do exercício. Os dados gerados são cruciais e podem subsidiar futuras políticas públicas de saúde.
O diretor-presidente da FAPDF, Leonardo Reisman, ressalta a importância da iniciativa: “A FAPDF apoia projetos que transformam conhecimento científico em impacto social. Este estudo reúne ciência de excelência, inovação e cuidado humanizado, com benefícios concretos para as mulheres do Distrito Federal.” A expectativa é que o Get Real & Heel Brasil se torne um modelo de referência em cuidado integral e humanizado, articulando pesquisa, extensão e impacto social na rede pública de saúde.



