Uma nova pesquisa no Brasil revela um panorama complexo sobre a percepção e o engajamento da população em relação às mudanças climáticas. Apesar de quase 90% dos brasileiros demonstrarem um forte desejo por ações eficazes para combater a crise ambiental, essa pauta crucial paradoxalmente aprofunda a polarização política entre a direita e a esquerda. Este estudo inovador, que será oficialmente lançado durante a COP30 em Belém, aponta a cultura como um vetor estratégico fundamental para informar, educar e mobilizar a sociedade em torno da sustentabilidade.
Divisão Política e o Apelo por Sustentabilidade
O levantamento minucioso, que investigou a intersecção entre cultura e clima, evidenciou que a vasta maioria dos entrevistados — aproximadamente 90% — exige um compromisso irrestrito dos representantes políticos com a sustentabilidade ambiental e a justiça social. Contudo, essa demanda não se manifesta de maneira uniforme em todo o espectro político. Notavelmente, entre os indivíduos que se identificam com a esquerda, o percentual de apoio a tais pautas atinge impressionantes 98,8%. Por outro lado, entre aqueles que se classificam como de direita, o engajamento, embora presente, é consideravelmente menor, com 52,1% manifestando essa preocupação.
Além disso, a relevância da agenda climática já se fez sentir nas eleições recentes de 2024. Para 55,1% dos eleitores de esquerda, as propostas relacionadas ao clima representaram um fator determinante na escolha de seus candidatos. Em contraste, essa proporção foi de 40,4% entre os participantes que se identificam com a direita, sublinhando a clivagem ideológica em torno da urgência ambiental. A pesquisa, intitulada “Cultura e Clima – Percepções e Práticas no Brasil”, foi concebida e executada em uma parceria estratégica entre a organização não governamental C de Cultura, a empresa Outra Onda Conteúdo e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). A íntegra de suas descobertas será apresentada publicamente nesta quinta-feira, 13 de novembro, no âmbito da COP30, que ocorrerá na cidade de Belém.
Preocupação Generalizada versus Sensação de Impotência
Os resultados do estudo também apontam para uma preocupação ambiental difundida na sociedade brasileira. Significativos 82,1% dos participantes revelaram estar preocupados com as alterações climáticas, sendo que 53,4% descrevem seu nível de apreensão como “profundamente preocupado”. Entretanto, essa ampla consciência não se traduz automaticamente em um senso de agência. Pelo contrário, 52,4% dos entrevistados expressaram sentimentos de impotência, afirmando que se sentem incapazes de contribuir efetivamente para o enfrentamento dessa problemática global. Ainda assim, uma parcela considerável da população — mais da metade, totalizando 54,6% — busca proativamente se informar sobre o tema do clima, frequentemente recorrendo a produtos ou instituições culturais.
A Cultura como Motor de Mobilização e Conhecimento
Mariana Resegue, diretora-executiva da C de Cultura, interpreta esses dados como um indicativo de que a magnitude do desafio climático é percebida como superior à capacidade de ação individual. Ela ressalta que “há falta de comunicação e informação sobre como cada pessoa pode colaborar e fortalecer a mobilização em torno do enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas”. Dessa forma, o principal propósito da pesquisa foi precisamente investigar e fomentar a integração da cultura com a urgente agenda climática, vislumbrando um caminho para empoderar os cidadãos.
De fato, o levantamento consolidou a percepção da cultura como uma valiosa fonte de informação e engajamento. Expressivos 83,5% dos participantes acreditam firmemente que podem aprofundar seu entendimento sobre as questões climáticas através de atividades e bens culturais, como a leitura de livros, a apreciação de filmes e músicas, ou visitas a museus e exposições. Adicionalmente, 73,3% percebem essas manifestações culturais como ferramentas práticas e úteis para auxiliá-los a navegar e reagir à crise climática. Mais ainda, 62,6% dos entrevistados afirmaram que já implementaram mudanças em seus hábitos ambientais ou sociais, inspirados diretamente por alguma obra ou por instituições do universo cultural.
Nesse contexto, Resegue enfatiza a importância estratégica do setor: “A pesquisa evidencia para os tomadores de decisão que a cultura é uma plataforma importante de mobilização e disseminação do conhecimento científico, aumentando a mobilização da sociedade em torno das agendas climáticas”. Assim, a cultura emerge não apenas como um espelho da sociedade, mas como um catalisador ativo para a transformação e o engajamento público.
O Valor e a Vulnerabilidade das Populações Tradicionais
Outro achado significativo do estudo diz respeito ao reconhecimento do papel vital das populações tradicionais na luta contra as mudanças climáticas. Uma ampla maioria, 77,5% dos participantes, concorda que povos indígenas, comunidades quilombolas e outras similares podem oferecer contribuições cruciais para o Brasil enfrentar os desafios climáticos. Por outro lado, um dado que merece atenção é que apenas 34,3% dos entrevistados demonstraram reconhecer que essas comunidades são, na realidade, particularmente vulneráveis e desproporcionalmente afetadas pelos severos impactos da crise climática. Isso sugere uma lacuna no entendimento público sobre as injustiças socioambientais enfrentadas por esses grupos.
Em conclusão, a pesquisa “Cultura e Clima” oferece um panorama detalhado da complexidade que envolve a pauta ambiental no Brasil. Ela não apenas reforça a necessidade urgente de ação climática percebida pela grande maioria da população, mas também destaca a intrínseca ligação entre a cultura, a educação e a capacidade de mobilização social para enfrentar um dos maiores desafios de nossa era. O lançamento desses dados na COP30 visa munir tomadores de decisão com insights valiosos para a construção de estratégias mais eficazes e inclusivas.



