O cenário agrário brasileiro apresentou uma dinâmica preocupante nos primeiros seis meses de 2026. Dados recentes indicam um aumento no volume total de conflitos no campo, saltando de 798 para 841 casos em comparação ao mesmo período do ano anterior. Por outro lado, o número de assassinatos registrados caiu significativamente, passando de 27 para seis ocorrências no intervalo analisado.
Aumento da mercantilização da terra
Especialistas apontam que a tendência de alta nos conflitos reflete a crescente mercantilização e financeirização da terra. Segundo Cecília Gomes, coordenadora nacional da organização responsável pelo levantamento, o campo brasileiro está longe de ser um ambiente de paz. A executiva destaca que a atuação de fundos de pensão e o interesse econômico em recursos como as chamadas terras raras, frequentemente localizadas em territórios de comunidades tradicionais, têm intensificado as disputas.
“Toda essa corrida pela terra e pelo que tem na terra acontece cada vez mais no território brasileiro, no sentido da financeirização da terra”, afirmou Gomes. A análise sugere que, embora o número de mortes tenha diminuído, a prática de massacres, envolvendo o assassinato de múltiplas pessoas em um único evento, continua sendo uma característica persistente e alarmante do cenário atual.
Perfil dos conflitos e violência
Do total de 841 conflitos registrados, a maioria (711) refere-se especificamente a disputas por terra, seguidos por 100 casos envolvendo recursos hídricos e 30 ocorrências de trabalho escravo rural. O estado do Maranhão lidera o ranking nacional de conflitos, com 156 registros, seguido pelo Pará (90), Bahia (85), Rondônia (63) e Amazonas (63). No Amazonas, especificamente, houve um salto de 140% nas ocorrências em relação a 2025.
A violência no campo também se manifesta de formas variadas. A contaminação por agrotóxicos emergiu como a prática mais frequente, subindo de 98 para 169 casos. Cecília Gomes alerta para a gravidade dessa estratégia: “Não vai matar no momento inicial, mas vai matando o sujeito aos poucos”. Além disso, invasões de territórios, desmatamento ilegal e ameaças de despejo completam o quadro de tensões que afeta camponeses e populações tradicionais em diversas regiões do Brasil.







